Stablecoins expõem dilema geopolítico ao ganhar força em Venezuela e Irã
Uso do USDT cresce como proteção contra inflação e sanções, mas também levanta alertas sobre evasão e financiamento de entidades sancionadas
A escalada de tensões políticas e sociais na Venezuela e no Irã, no início de 2026, voltou a colocar os stablecoins lastreados em dólar, especialmente o USDT (Tether), no centro do debate global. Esses ativos digitais têm funcionado simultaneamente como instrumento de sobrevivência financeira para a população e como meio de evasão de sanções por entidades sob embargo internacional.
Ambos os países enfrentam sanções severas, inflação persistente, instabilidade política e crises no custo de vida. Nesse cenário, criptomoedas e stablecoins passaram a ocupar um papel central nas economias locais, substituindo sistemas financeiros considerados ineficientes ou inacessíveis.
Irã: stablecoins como refúgio e como risco geopolítico
Nas últimas semanas, o Irã foi tomado por protestos em resposta ao agravamento da crise econômica e à desvalorização histórica do rial frente ao dólar. A situação evoluiu de manifestações pontuais para protestos em escala nacional, com milhares de prisões, centenas de mortes relatadas e, mais recentemente, o bloqueio parcial da internet pelo governo.
Diante da perda contínua do poder de compra da moeda local, o USDT na rede Tron tornou-se o principal instrumento financeiro alternativo para os cidadãos iranianos, sendo usado como proteção contra inflação e risco sistêmico.
No entanto, o avanço da adoção sofreu retrocessos em 2025, após:
Um ataque hacker à maior exchange do país
Um aumento significativo de endereços USDT incluídos em listas de bloqueio
A imposição de limites governamentais, fixando posse máxima de US$ 10 mil em stablecoins e compras anuais limitadas a US$ 5 mil por pessoa
Além do uso civil, um relatório da TRM Labs revelou que, desde 2023, a Guarda Revolucionária Islâmica do Irã (IRGC) teria movimentado mais de US$ 1 bilhão em stablecoins por meio de duas empresas de fachada supostamente sediadas no Reino Unido, Zedcex e Zedxion.
Segundo a análise, as duas empresas atuariam de forma integrada como infraestrutura financeira para evasão de sanções, facilitando transferências internacionais em nome de uma das organizações militares mais sancionadas do mundo. O relatório também cita Babak Zanjani, conhecido financiador de esquemas de evasão iranianos, como figura central dessa rede.
Venezuela: USDT integrado ao cotidiano
Na Venezuela, o cenário é semelhante sob outra perspectiva. Após uma década de colapso do bolívar, a população passou a adotar o USDT como moeda funcional, não apenas como reserva de valor, mas como meio de pagamento cotidiano.
A desconfiança generalizada no sistema bancário fez com que carteiras cripto substituíssem contas tradicionais. Segundo relatos, stablecoins são usadas para pagar desde serviços domésticos até despesas pessoais básicas.
“É assim que você paga o jardineiro e o corte de cabelo. Você pode usar USDT praticamente para tudo”, afirmou o empresário venezuelano Mauricio Di Bartolomeo, de 71 anos, em entrevista recente.
A adoção avançou mesmo sem infraestrutura regulada robusta, com a população preferindo stablecoins ao sistema financeiro local.
O Wall Street Journal também destacou que a estatal PDVSA, empresa petrolífera venezuelana, passou a exigir pagamentos diretamente em USDT para evitar sanções impostas desde 2020. Estimativas indicam que até 80% da receita do petróleo da empresa já seja liquidada via Tether, usada tanto para recebimentos quanto para pagamentos internacionais.
Tether intensifica bloqueios
Diante desses riscos, a Tether tem ampliado sua cooperação com autoridades internacionais. Dados da AMLBot indicam que, entre 2023 e o fim de 2025, a empresa bloqueou cerca de US$ 3,3 bilhões em USDT, sendo US$ 1,75 bilhão na rede Tron.
No último fim de semana, outros US$ 182 milhões em USDT foram congelados em cinco carteiras — embora não haja confirmação oficial de ligação direta com Venezuela ou Irã.
O caso evidencia a dualidade estrutural dos stablecoins: ao mesmo tempo em que oferecem liberdade financeira e proteção contra moedas falidas, também desafiam o sistema de sanções globais e a supervisão regulatória tradicional.
Fonte: TRM Labs; Wall Street Journal; AMLBot; Cointelegraph
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