Paraguai no centro do tabuleiro geopolítico: Aproximação com os EUA muda equilíbrio estratégico no Cone Sul
Acordos militares, presença do FBI e disputa global com a China colocam o país no radar das grandes potências — enquanto o Brasil observa
Em dezembro de 2025, o secretário de Estado americano Marco Rubio desembarcou em Washington para assinar, ao lado do chanceler paraguaio Rubén Ramírez Lezcano, um acordo que poucos noticiários brasileiros cobriram com a devida atenção. O documento permitia, pela primeira vez de forma explícita e juridicamente vinculante, a presença operacional de militares norte-americanos em solo paraguaio.
Não foi um evento isolado. Foi o ponto mais visível de uma reconfiguração que vinha se desenhando há anos — e que coloca o Paraguai, historicamente tratado como um país periférico, no centro de uma das disputas geopolíticas mais relevantes do hemisfério ocidental.
O acordo que mudou o jogo
O Status of Forces Agreement (SOFA) assinado em 15 de dezembro de 2025 é um instrumento jurídico que os Estados Unidos utilizam com mais de 100 países aliados. Ele não cria, necessariamente, uma base militar permanente — mas estabelece a infraestrutura legal para que isso aconteça se houver interesse.
Na prática, o acordo autoriza:
• presença e atuação de militares americanos em território paraguaio
• operações conjuntas de treinamento e segurança
• assistência humanitária e resposta a desastres
• entrada de equipamentos e material bélico
• jurisdição criminal americana sobre seus próprios militares por atos cometidos no Paraguai
Esse último ponto gerou o debate mais intenso no Senado paraguaio, que aprovou o acordo com 28 votos favoráveis no início de 2026. A cessão de jurisdição penal a uma potência estrangeira é, em qualquer país, uma concessão sensível — e a oposição paraguaia foi vocal em apontar isso.
O SOFA não significa base militar permanente. Mas abre caminho para ela. A distinção importa — e costuma ser ignorada tanto por quem minimiza o acordo quanto por quem o exagera.
FBI na Tríplice Fronteira
Antes mesmo do acordo militar, em agosto de 2025, Paraguai e Estados Unidos já haviam formalizado outro entendimento: a instalação de escritórios do FBI no país e a criação de um centro antiterrorista na região da Tríplice Fronteira — a área onde se encontram Brasil, Argentina e Paraguai.
A região é classificada como zona sensível pelo Departamento de Estado americano desde os anos 1990. Os focos declarados da cooperação incluem:
• combate ao narcotráfico e ao contrabando
• monitoramento de organizações criminosas transnacionais — incluindo PCC e Comando Vermelho
• investigação de redes de financiamento ligadas ao Hezbollah
• inteligência financeira sobre lavagem de dinheiro
Para o Brasil, esse é o ponto mais delicado. O governo Lula recusou classificar o PCC e o Comando Vermelho como organizações terroristas — posição divergente da americana. Se as operações do FBI na fronteira paraguaira passarem a envolver ações diretas contra facções com ramificações brasileiras, o tema pode se tornar um atrito diplomático de primeira ordem.
O fator China — o elemento mais subestimado
A narrativa dominante sobre os acordos EUA-Paraguai foca em segurança. Mas há uma dimensão geopolítica mais profunda que raramente aparece nas análises populares: a China.
O Paraguai é o único país da América do Sul que mantém relações diplomáticas com Taiwan, em vez de reconhecer a República Popular da China. Essa posição, mantida há décadas pelo Partido Colorado no poder, tem um preço — e também um valor estratégico imenso para Washington.
Pequim tem tentado sistematicamente convencer o Paraguai a romper com Taiwan. Cada avanço americano no país é, também, um recuo do espaço disponível para a China no Cone Sul.
Se o Paraguai viesse a reconhecer a China, as implicações seriam significativas: presença política e econômica chinesa no centro da América do Sul, corredor direto de influência até o Brasil e maior poder de barganha sobre ativos como Itaipu e cadeias logísticas regionais.
A aproximação com Washington não é, portanto, apenas sobre segurança. É sobre qual potência vai definir as regras do jogo no subcontinente nas próximas décadas.
Energia e infraestrutura: o ativo real
O Paraguai possui uma das matrizes elétricas mais baratas do mundo. As hidrelétricas de Itaipu e Yacyretá geram muito mais energia do que o país consome — e esse excedente, historicamente repassado ao Brasil a preços negociados, começa a ser visto com outros olhos.
O secretário de Estado Marco Rubio chegou a mencionar publicamente a possibilidade de direcionar a capacidade de Itaipu a empresas americanas de inteligência artificial — uma declaração que gerou reação imediata em Brasília e que ilustra como a energia paraguaia passou a ser uma variável na disputa tecnológica global.
Além disso, o excedente energético barato já atrai interesse internacional em setores como data centers, indústria de alto consumo energético e infraestrutura digital. São investimentos que tendem a se acelerar conforme o posicionamento geopolítico do país se consolida.
A energia barata é o ativo concreto. Os acordos de segurança são o guarda-chuva que protege o acesso a ele. Separar as duas coisas é perder metade da análise.
Mercosul: o dilema que não é bem um dilema
O post original que motivou esta análise levantava uma questão legítima: um acordo comercial bilateral entre Paraguai e EUA forçaria o país a escolher entre Washington e o Mercosul?
A resposta é: provavelmente não — ao menos não nos termos colocados. O Mercosul realmente limita acordos comerciais independentes com terceiros, e o Uruguai quase foi expulso do bloco em 2006 por tentar negociar diretamente com os EUA. Mas o bloco está muito mais fragilizado hoje do que estava então.
Argentina negocia fora da estrutura tradicional. Uruguai busca acordos com China e outros parceiros. E em janeiro de 2026, o próprio Mercosul assinou o histórico acordo com a União Europeia — criando uma das maiores zonas de livre-comércio do planeta, com mais de 700 milhões de consumidores.
O resultado é um cenário mais complexo: o Paraguai se aproxima militarmente dos EUA, integra um mega-acordo comercial com a Europa e mantém sua posição no Mercosul — tudo ao mesmo tempo. O dilema binário não existe. O que existe é uma gestão cuidadosa de múltiplos alinhamentos simultâneos.
O Aquífero Guarani: recurso real, narrativa inflacionada
Nenhuma análise geopolítica sobre o Paraguai fica completa sem mencionar o Aquífero Guarani — um dos maiores reservatórios subterrâneos de água doce do planeta, com cerca de 1,2 milhão de km² distribuídos entre Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai.
A narrativa de que os EUA estariam interessados militarmente no aquífero circula há décadas em análises acadêmicas e discursos políticos latino-americanos. Ela não é absurda — água doce é um recurso estratégico crescentemente escasso, e a localização do aquífero coincide com áreas de interesse americano.
Mas é importante separar o que é fato do que é especulação: não existe documento público vinculando os acordos recentes EUA-Paraguai ao aquífero. As justificativas oficiais giram em torno de narcotráfico, terrorismo e contenção da China. Tratar o aquífero como motivação principal é, por ora, uma inferência — não uma conclusão.
Os riscos que o otimismo tende a ignorar
Seria incompleto apresentar o reposicionamento paraguaio apenas como uma estratégia bem-sucedida. Há riscos reais que merecem atenção.
O primeiro é a dependência excessiva de um único parceiro. Alinhar-se fortemente com Washington em um momento de extrema volatilidade da política externa americana — com mudanças bruscas de prioridades entre governos — é uma aposta que pode se revelar cara se o interesse americano mudar de foco.
O segundo é a pressão sobre soberania. A cláusula de jurisdição penal do SOFA, a presença do FBI, os acordos de segurança com condicionalidades — tudo isso cria dependências institucionais que são difíceis de reverter. O Paraguai ganha proteção, mas cede espaço de autonomia.
O terceiro é o impacto nas relações com o Brasil. Os dois países compartilham fronteira extensa, Itaipu e laços econômicos profundos. Uma presença militar americana crescente no Paraguai, com foco em organizações criminosas que têm ramificações no Brasil, cria fricções diplomáticas que o governo paraguaio terá de administrar com cuidado.
Nenhum posicionamento geopolítico vem sem custo. A questão relevante não é se o Paraguai está ‘ganhando’ ou ‘perdendo’ — é se os ganhos justificam as concessões, e quem dentro do país arca com elas.
O que está em jogo
O Paraguai não é mais um ator periférico na geopolítica sul-americana. Em poucos anos, o país acumulou acordos militares com os EUA, presença do FBI em sua fronteira, protagonismo na assinatura do acordo Mercosul-UE e um crescimento econômico consistentemente acima da média regional.
Esse conjunto de movimentos não acontece por acaso. É o resultado de uma convergência entre interesse americano em reposicionar sua presença no hemisfério, interesse paraguaio em atrair capital e proteção diplomática, e uma conjuntura global em que cada país do Cone Sul está sendo forçado a escolher com quem se alinha — mesmo que tente, como o Paraguai, não escolher definitivamente.
O Brasil, maior economia da região e vizinho direto, acompanha esse processo de uma posição desconfortável: sem acordos equivalentes com Washington, sem clareza sobre sua posição diante da China e com uma relação cada vez mais tensa com o governo argentino de Milei, que aprofunda o alinhamento com Trump.
Compreender o que está acontecendo no Paraguai não é um exercício acadêmico. É uma leitura necessária para quem quer entender para onde a América do Sul está se movendo — e o que isso significa para negócios, investimentos e relações políticas na região nas próximas décadas.
Para entender por que cada vez mais investidores, empresas e empreendedores
estão olhando para o Paraguai com outros olhos:
www.oandrecosta.com.br/paraguai



