Brasil teme perder espaço no mercado europeu de farelo de soja diante das exigências de rastreabilidade contra o desmatamento. Argentina e Paraguai aparecem em posição favorável para atender às normas do bloco.
O setor brasileiro de soja teme que as novas regras ambientais da União Europeia reduzam as exportações de farelo de soja para o mercado europeu e abram espaço para concorrentes sul-americanos, especialmente a Argentina. A preocupação está relacionada ao Regulamento Europeu contra o Desmatamento (EUDR), que exige comprovação de que os produtos importados não estão associados a áreas desmatadas.
O Brasil é um dos principais fornecedores de farelo de soja para a fabricação de ração animal na União Europeia, respondendo por aproximadamente metade das importações do bloco no ano passado, segundo dados da Federação Europeia de Fabricantes de Ração (FEFAC). Em 2025, o país exportou um volume recorde de 23,3 milhões de toneladas do produto.
As novas exigências de rastreabilidade podem, entretanto, dificultar a manutenção dessa participação. De acordo com a FEFAC, até 4 milhões de toneladas de farelo de soja brasileiro, equivalentes a cerca de 17% das exportações, poderiam enfrentar restrições em razão das dificuldades para comprovar a conformidade com as regras.
Logística brasileira dificulta rastreabilidade
Na avaliação da FEFAC, o Brasil recebeu classificação de risco médio para possíveis interrupções no abastecimento relacionadas ao regulamento. O relatório aponta obstáculos estruturais e logísticos, especialmente em Mato Grosso e em outras regiões produtoras, que podem dificultar a organização de cadeias de fornecimento totalmente rastreáveis.
Dante Romano, gerente de pesquisa da corretora de grãos Max Agro, explicou que a distância entre as áreas produtoras do Centro-Oeste brasileiro e os portos de exportação pode ultrapassar 2 mil quilômetros. O transporte frequentemente envolve caminhões, barcaças e ferrovias, o que torna mais complexa a identificação da origem dos produtos ao longo da cadeia logística.
Na Argentina, por outro lado, as principais regiões produtoras estão concentradas nas planícies dos Pampas, a distâncias de até 350 quilômetros do complexo portuário de Rosário. Essa proximidade facilita o monitoramento da produção e pode reduzir os custos de adequação às exigências europeias.
O presidente da Associação Brasileira dos Produtores de Soja (Aprosoja), Maurício Buffon, criticou os efeitos da legislação sobre o Brasil. Segundo ele, o país desenvolve iniciativas de recuperação ambiental em determinadas regiões, mesmo com a expansão de novas áreas agrícolas.
Argentina aposta em sistema de rastreabilidade
A indústria argentina de processamento de soja pretende aproveitar eventuais dificuldades dos exportadores brasileiros. Gustavo Idigoras, presidente da Câmara Argentina de Exportadores e Processadores de Grãos (CIARA-CEC), afirmou que o país tem capacidade para compensar parte das possíveis perdas brasileiras, estimadas por ele entre 5 milhões e 6 milhões de toneladas.
O dirigente destacou o sistema VISEC, utilizado para acompanhar a soja e a carne bovina desde a produção até a exportação. Segundo Idigoras, a estrutura já está em funcionamento e permite atender às exigências de rastreabilidade demandadas pelo mercado europeu.
A FEFAC atribuiu à Argentina uma classificação de baixo risco para interrupções de abastecimento relacionadas ao EUDR. A entidade projeta que quase toda a produção argentina de farelo de soja do primeiro semestre de 2027 poderá atender aos requisitos europeus.
A Argentina é a maior exportadora mundial de farelo de soja. No ano passado, o país embarcou aproximadamente 27 milhões de toneladas, das quais cerca de um quarto teve como destino o Sudeste Asiático.
Paraguai também pode ampliar participação
O Paraguai também aparece entre os países sul-americanos com condições favoráveis para atender às novas exigências. A Câmara Paraguaia de Processadores de Oleaginosas e Cereais (CAPPRO) afirmou que o país possui condições estruturais para cumprir as normas europeias.
Na Região Oriental, onde se concentra a maior parte da produção paraguaia de soja, uma legislação aprovada em 2004 proíbe o desmatamento para a expansão agrícola. Assim como a Argentina, o Paraguai recebeu classificação de baixo risco da FEFAC.
A mudança nas exigências comerciais ocorre em um momento de aproximação entre a União Europeia e o Mercosul, bloco formado por Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai, que avançaram nas negociações de um acordo de livre comércio.
Com a implementação das regras ambientais, a capacidade de comprovar a origem dos produtos poderá ganhar ainda mais importância nas relações comerciais. Para os exportadores sul-americanos, o desafio será adaptar as cadeias produtivas e logísticas às exigências europeias sem comprometer a competitividade no mercado internacional.



