📰 Diário Crypto — 26 de janeiro de 2026
Bitcoin falha como “ouro digital” enquanto Brasil e Paraguai seguem caminhos monetários opostos
🌍 Panorama Global Cripto e Macro
O mercado global entra nesta semana sob forte tensão macroeconômica. Riscos de shutdown nos Estados Unidos avançam rapidamente, ameaças tarifárias voltam ao radar político e o dólar mostra sinais claros de enfraquecimento estrutural. Em cenários como esse, ativos de proteção costumam responder de forma imediata.
O ouro respondeu.
O Bitcoin, não.
Essa divergência vem ganhando peso na análise institucional. Em vez de se comportar como um ativo de proteção global, o Bitcoin voltou a operar como um ativo de risco altamente sensível ao ambiente político e financeiro dos Estados Unidos. Tecnicamente, o ativo perdeu níveis relevantes de longo prazo, fechando abaixo da média móvel de cem semanas e registrando a pior leitura semanal em cerca de nove meses — comportamento incompatível com uma tese clássica de “flight to safety”.
Enquanto isso, o desempenho relativo entre os dois ativos se distancia: ao longo de 2025, o ouro acumula forte valorização, enquanto o Bitcoin apresenta desempenho negativo. Em eventos recentes de estresse — tarifas, conflitos geopolíticos, riscos fiscais e até crises cambiais — o padrão se repete: o ouro absorve fluxo defensivo, o Bitcoin oscila ou perde força.
O debate deixa de ser emocional e passa a ser estrutural.
🧠 Por que o Bitcoin não está reagindo como reserva de valor?
A leitura atual do mercado aponta três fatores centrais:
1. Concentração de posse e viés geográfico
Uma parcela crescente da oferta de Bitcoin está concentrada em entidades institucionais sediadas nos Estados Unidos. Grandes holdings corporativas, fundos listados e veículos regulados detêm uma fração relevante do supply total. Isso altera o comportamento do ativo em momentos de estresse quando a própria origem do risco é o sistema político e fiscal norte-americano. Um ativo com pretensão de reserva global precisa transmitir neutralidade — algo que hoje o mercado começa a questionar.
2. Risco de horizonte longo e percepção soberana
Embora não exista uma ameaça imediata à segurança do protocolo, o debate sobre riscos tecnológicos de longo prazo — como avanços em computação quântica — pesa na análise de bancos centrais e gestores soberanos, que operam com horizontes de cinco a quinze anos. O ouro carrega milênios de histórico como reserva. O Bitcoin, apesar de sua robustez, ainda constrói esse capital de confiança institucional.
3. Fratura cultural dentro do próprio ecossistema
A crescente financeirização do Bitcoin, via ETFs e instrumentos tradicionais, gera desconforto em parte da base original do ecossistema. Para esse grupo, o ativo se distancia da proposta inicial de soberania, autocustódia e neutralidade política. Esse deslocamento cultural começa a se refletir em fluxos e narrativas alternativas dentro do próprio mercado cripto.
O resultado é um Bitcoin cada vez mais tratado como um ativo sofisticado de risco ligado ao ciclo financeiro americano, e não como uma reserva neutra global — ao menos neste momento do ciclo.
🔄 A possível rotação de narrativa
Diante dessa reprecificação, cresce a atenção sobre ativos que preservam características mais próximas da filosofia original do ecossistema cripto, especialmente no campo da privacidade e da resistência à censura. Não se trata de uma substituição estrutural do Bitcoin, mas de uma leitura tática: se o mercado passa a questionar sua função como hedge macro, parte do capital nativo tende a buscar alternativas alinhadas ideologicamente.
Ainda assim, esse movimento carrega riscos regulatórios e de liquidez relevantes. O mercado observa, mas não antecipa decisões.
O ponto central é claro: o Bitcoin não está “falhando”, mas está sendo reavaliado. O ciclo atual exige que o ativo prove, na prática, o papel que a narrativa atribui a ele.
🇧🇷 Seção Brasil — Mercado entre otimismo técnico e cautela fiscal
O mercado financeiro brasileiro inicia a semana em tom de cautela otimista, influenciado pela proximidade da superquarta, quando Copom e Federal Reserve decidem juros. O Ibovespa futuro opera em alta moderada, rondando máximas históricas, impulsionado por fluxo estrangeiro e expectativa de cortes de juros a partir de março. O dólar recua levemente, abaixo de R$ 5,40.
O Boletim Focus reduziu pela terceira semana consecutiva a projeção de inflação para 2026, agora em 4,00%, reforçando a leitura de convergência gradual à meta. A Selic permanece em 15%, e o Banco Central tende a pausar movimentos nesta reunião, aguardando dados adicionais de atividade e emprego.
No campo corporativo, investimentos relevantes e movimentações estratégicas — como remessas recordes de lucros ao exterior antes de mudanças tributárias — revelam tanto confiança operacional quanto cautela fiscal. A queda na confiança do consumidor, medida pela FGV, funciona como alerta para o consumo doméstico no curto prazo.
O Brasil segue equilibrando entrada de capital estrangeiro, crescimento estrutural e riscos fiscais latentes.
🇵🇾 Seção Paraguai — Agilidade monetária e tração estrutural
O Paraguai se destaca por sua resposta mais ágil ao ambiente global. O Banco Central do Paraguai surpreendeu o mercado ao reduzir a taxa básica para 5,75%, reforçando o compromisso com estímulo ao crescimento em um cenário de inflação controlada.
A valorização do guarani, o crescimento expressivo das transferências via SIPAP e a modernização da Bolsa de Valores de Assunção — agora operando com tecnologia Nasdaq — fortalecem a percepção de estabilidade institucional e atração de capital estrangeiro.
O acordo Mercosul–União Europeia, assinado recentemente em Assunção, amplia o potencial de exportações e investimentos, especialmente em setores ligados a agro, energia e sustentabilidade. Programas de financiamento produtivo e avanços regulatórios sustentam o ciclo econômico, mesmo diante de desafios estruturais como concentração bancária e dependência de commodities.
Comparativamente ao Brasil, o Paraguai apresenta menor escala, mas maior previsibilidade e flexibilidade monetária — fatores cada vez mais valorizados em um mundo instável.
🧾 Conclusão
O cenário atual expõe uma assimetria importante: enquanto o ouro reassume seu papel clássico de proteção, o Bitcoin passa por um processo de reprecificação narrativa. Ao mesmo tempo, Brasil e Paraguai ilustram duas abordagens distintas de política econômica em um ambiente global volátil.
O mercado não está rejeitando o Bitcoin — está redefinindo o que ele representa neste ciclo.
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