Banco Central testa mercado, dólar resiste e debate sobre R$ 7 ganha força
O mercado de câmbio brasileiro encerrou dezembro de 2025 com um sinal claro: a liquidez em dólar segue disponível, mas sob condições cada vez mais seletivas. O episódio que desencadeou o debate foi o resultado de um leilão de linha do Banco Central realizado em 23 de dezembro, que acabou funcionando mais como diagnóstico do que como solução.
Na ocasião, o BC ofertou até US$ 2 bilhões em leilões de linha — operação em que dólares são vendidos com compromisso de recompra futura —, mas o mercado absorveu apenas US$ 500 milhões, equivalente a 25% do volume ofertado. A operação chamou atenção porque ocorreu em um período tradicionalmente marcado por maior demanda por moeda estrangeira, em razão do fechamento de balanços, necessidade de hedge corporativo e ajustes de posições financeiras de fim de ano.
Venda parcial expõe sensibilidade a preço e prazo
Dados operacionais da operação indicam que apenas uma proposta foi aceita em cada leilão, o que sugere um nível reduzido de competição e reforça a leitura de que o mercado não rejeitou o dólar em si, mas sim as condições associadas à operação, como prazo de recompra e taxa implícita.
Em circunstâncias normais, intervenções desse tipo tendem a aliviar pressões no mercado à vista e reduzir distorções nos instrumentos de hedge. No entanto, o comportamento posterior dos preços indicou que a oferta parcial não foi suficiente para normalizar a liquidez.
Após o leilão, o dólar não apresentou queda consistente, e indicadores de custo de carregamento permaneceram pressionados, sugerindo que o estresse no mercado cambial continuava presente.
Novo leilão confirma diagnóstico
Três dias depois, em 26 de dezembro, o Banco Central voltou ao mercado com novos leilões de linha. Desta vez, o resultado foi significativamente diferente: os US$ 2 bilhões ofertados foram integralmente absorvidos.
A principal diferença esteve no desenho da operação. O BC ofereceu:
prazos mais curtos de recompra, especialmente para fevereiro de 2026;
taxas de corte mais elevadas nos vencimentos mais próximos.
O mercado respondeu com maior participação e aceitação de volume, indicando que a demanda por dólares existia, mas estava condicionada a menor exposição temporal e maior remuneração.
Leitura do mercado: liquidez existe, mas não é incondicional
Para analistas, a sequência de eventos reforça uma característica recorrente em momentos de maior incerteza macroeconômica: a liquidez internacional continua disponível para o Brasil, porém de forma oportunista e sensível ao risco.
Em outras palavras, o capital não desaparece, mas exige:
prazos mais curtos,
maior prêmio,
e flexibilidade por parte da autoridade monetária.
Esse comportamento é comum em mercados emergentes quando fatores como fiscal, política e cenário externo elevam o grau de incerteza.
Dólar a R$ 7: cenário-base ou risco de cauda?
Com esse pano de fundo, voltou ao debate a possibilidade de o dólar atingir o patamar de R$ 7,00. Segundo expectativas consolidadas de mercado, esse nível não é considerado cenário-base no horizonte atual. As projeções medianas seguem apontando o câmbio em patamares significativamente inferiores.
Ainda assim, economistas ressaltam que movimentos para níveis mais elevados não costumam ocorrer por eventos isolados, mas sim por processos cumulativos de reprecificação de risco.
Entre os principais vetores que poderiam levar o dólar a níveis mais extremos estão:
deterioração persistente da trajetória fiscal,
aumento do ruído político com impacto institucional,
choque externo que fortaleça o dólar globalmente,
ou combinação desses fatores com saída relevante de fluxos financeiros.
Como o mercado costuma chegar a níveis extremos
Historicamente, movimentos de câmbio mais abruptos tendem a ocorrer em etapas:
rompimento gradual de níveis de referência,
aumento de volatilidade,
normalização do patamar mais alto no discurso econômico,
perda de ancoragem de expectativas.
Nesse contexto, o patamar de R$ 7,00 seria menos um ponto de partida e mais um resultado final de uma deterioração prolongada do ambiente de confiança.
Implicações mais amplas
O episódio dos leilões de linha reforça a importância de acompanhar não apenas o volume das intervenções do Banco Central, mas também o custo necessário para que elas sejam eficazes. Quando a autoridade monetária precisa ajustar prazo e taxa para conseguir absorção plena, o mercado está, na prática, sinalizando maior aversão a risco.
Para investidores, o caso funciona como lembrete de que:
o câmbio segue sendo um dos principais termômetros de confiança,
intervenções aliviam, mas não substituem fundamentos,
e movimentos extremos geralmente refletem perda gradual de credibilidade, não choques pontuais.
Conclusão
O leilão parcial de 23 de dezembro não representou uma falha operacional, mas um teste de mercado. O resultado revelou um ambiente em que o dólar continua acessível, porém sob condições mais rígidas.
O debate sobre dólar a R$ 7 permanece, por ora, no campo dos cenários de estresse. Ainda assim, os sinais recentes indicam que o mercado está cada vez mais atento ao custo do risco — e disposto a precificá-lo de forma explícita.
Em economias emergentes, esse processo costuma ser gradual, mas raramente silencioso.



